JUDAS, EM DEFESA DA GENUÍNA FÉ CRISTÃ

Judas informa aos leitores que, querendo escrever sobre a salvação comum, viu-se impulsionado pelo Espírito Santo a advertir os crentes sobre a necessidade de se batalhar pela fé genuína.

APOLOGÉTICA

Pr.Elimas Gedeon

11/4/202611 min read

A) INTRODUÇÃO AO TRIMESTRE

- A Epístola de Judas é a última das chamadas epístolas gerais, ou seja, cartas apostólicas dirigidas à Igreja como um todo.

- A Epístola de Judas foi uma das últimas a ser reconhecida como parte do cânon do Novo Testamento (ou seja, da relação dos livros inspirados), tendo sido um elemento decisivo para sua aceitação o fato de ter sido utilizada há largo tempo pela igreja em Roma. Dentre os principais defensores de sua canonicidade encontramos Tertuliano (abaixo esclarecimento sobre este filósofo e teólogo cristão do século III)

- Um dos principais motivos para a resistência à aceitação de Judas são as citações da contenda sobre o corpo de Moisés(
Jd.9) e do apócrifo "livro de Enoque" (Jd.14), citações, entretanto, que apenas revelam que o autor usava não só das Escrituras hebraicas mas também da tradição judaica para ilustrar o seu argumento.

- O autor da Epístola se intitula como sendo "o irmão de Tiago" (
Jd.1), entendendo-se que o Tiago a que se refere é o líder da igreja em Jerusalém, ou seja, o irmão do Senhor(Gl.1:19, At.15:13). Deste modo, Judas é, também, irmão de Jesus (cf.Mc.6:3).

- Judas se converteu apenas após a ressurreição de Jesus, provavelmente como conseqüência da aparição do Senhor a Tiago(
I Co.15:7), tendo sido batizado com o Espírito Santo no dia de Pentecostes(At.1:14).

- Judas tencionava escrever algo sobre a salvação dos cristãos, provavelmente um ensino a respeito da vida cristã, mas acabou impulsionado pelo Espírito Santo a escrever uma apologia, ou seja, um discurso de defesa da fé cristã, contra os falsos mestres que ameaçavam a Igreja já no seu tempo(
Jd.3).

- Judas apresenta um texto muito semelhante à Segunda Epístola de Pedro, preocupando-se em dissipar os ensinamentos do gnosticismo libertino, doutrina que ensinava que a matéria é má em si mesma e que só deve prevalecer o espírito, algo muito próximo ao ensinamento contemporâneo de que "Deus só quer o coração".
- Judas, nesta sua apologia, após apresentar o aparecimento dos falsos mestres naIgreja(
Jd.4), traz sete ilustrações das Escrituras a respeito deles, demonstrando qual é o fim deste tipo de gente, a saber: a rebelião da geração israelita do êxodo, a rebelião dos anjos, o juízo sobre Sodoma e Gomorra, a postura do arcanjo Miguel, Caim, Balaão e Coré(Jd.5-11)

- Em seguida, Judas apresenta doze características dos falsos mestres: manchas nas festas dos cristãos; nuvens sem água; árvores murchas, infrutíferas e mortas; ondas impetuosas do mar; estrelas errantes; murmuradores; arrogantes; interesseiros; escarnecedores; divisionistas; sensuais; pessoas sem o Espírito.(
Jd.12-19)

- Judas, então, faz uma exortação aos crentes diante destes falsos mestres, com sete recomendações: edificação sobre a fé, oração no Espírito, autoconservação no amor de Deus, esperança na misericórdia de Jesus Cristo para a vida eterna, piedade para com o irmão duvidoso, misericórdia para salvação de alguns do fogo, aborrecimento até da roupa manchada da carne.(
Jd.20-23).

- Judas encerra sua carta lembrando os irmãos da necessidade de uma vida livre de tropeços e com apresentação irrepreensível, com alegria, em virtude do poder de Deus, que é o único Senhor e dominador de todas as coisas(
Jd.24,25).


B) INTRODUÇÃO À LIÇÃO

- A humildade de Judas deve ser ressaltada, pois, provavelmente por não ter crido em seu meio-irmão como o Salvador do mundo (cf.Jo.7:5) até a ressurreição, entendia não ser digno de se identificar como irmão de Jesus, limitando-se a dizer que era irmão de Tiago, líder da igreja em Jerusalém. - Jd.1

- Este exemplo deve ser seguido pelos crentes, pois o principal título que devemos ostentar é o de "servo de Jesus Cristo", devendo sempre ter a mesma atitude daquele que o próprio Jesus testificou ser o maior de todos os homens, João Batista, cuja grandeza se encontra, precisamente, na sua humildade :" convém que Ele cresça e que eudiminua"(
Jo.3:30) .

OBS: "...Numa época talvez menos dedicada, no início do século X, o mais destacado rabino e mestre de sua geração, da Babilônia, Sherira Gaon, olhava nostalgicamente para trás, para a Idade de Ouro da inocência rabínica: ' As gerações mais antigas (de rabinos), porém, que eram muito superiores, não tinham títulos como os de Raban, Rabi, ou Rab, tanto para os Sábios da Babilônia quanto os da Palestina. Isto está evidente no fato de que Hilel, que veio de Babilônia, não tinha o título de Raban (Rabino Chefe) antes de seu nome...alguns dos Sábios são chamados simplesmente por seus nomes sem qualquer título, como Simão o Justo, Antígono de Sokho e José Ben Johanan..." (Enciclopédia Judaica, v.6, p.701). Será que este mesmo sentimento de Gaon não pode ser encontrado em meio aos cristãos, diante de tanta luta por títulos e auto-exaltações ?...

" ...Os tradutores e revisores erraram ao não colocarem aqui o termo mais correto e franco, "escravo", porquanto isso é o que afirma aqui o original grego, A 'escravidão' fala da perda absoluta da vontade pessoal, da total absorção de uma personalidade gumana por outra. Os escravos não tinham direitos, privilégio e vontade própria. Portanto, espiritualmente falando, ser alguém um "escravo' de Cristo indica dedicação absoluta, total outorga da alma aos Seus cuidados..." (R.N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.328-9).

Judas se dirige para os chamados, ou seja, para a Igreja em geral. Devemos sempre nos lembrar que a salvação é resultado de um interesse e dedicação do Senhor em relação a nós, um "favor imerecido", i.e., graça de Deus. O homem jamais pode se vangloriar por ser salvo, pois tudo é resultado de um chamado de Deus -
Tt.2:11; Rm.5:15;Jo.15:16.

OBS: " ...A 'chamada' nos chama para fora do mundo e da lealdade ao pecado cósmico (investido em Satanás), para que nos tornemos parte do reino de Deus, de sua retidão, do processo de transformação segundo o Seu Filho, o que ó destino de todos os eleitos de Deus(...) O autor sagrado queria mostrar que o fato que formos chamados por Deus envolve grande responsabilidade moral, algo que os gnósticos ignoravam e que desconheciam. Assim também Paulo invocou os crentes a que andassem de modo 'digno' de sua chamada e posição cristãs (ver Ef.4:1)..." (R.N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.329).

- Judas afirma que os chamados são queridos de Deus Pai , ou seja, declara que a razão de termos sido chamados por Deus é fruto de Sua vontade soberana, de Seu amor sem igual. Porque Deus nos amou, Ele nos chamou. Ele não é um Deus distante, que deixa os homens à mercê ou entregues à sua própria sorte, como ensinavam os gnósticos, mas um Deus que Se preocupa com Sua criação. -
Gn.2:18; 6:3,8;9:9-17.

OBS: "Os chamados também são 'amados'. Os gnósticos, contra os quais foi escrito este livro, criam no deísmo, o qual pode ser contrastado com o teísmo. O deísmo ensina que, apesar de existir um poder divino ou cósmico, que a tudo criou, esse poder ou pessoa não mantém interesse pessoal por sua criação, não galardoando nem castigando, nem fazendo intervenções na vida da humanidade. Deus, de acordo com essa definição, está divorciado de Sua criação. O teísmo, em contraposição a isso, ensina que Deus criou e até agora continua presente em Seu universo. Deus recompensa ao bem e pune ao mal, fazendo intervenções na história humana. Para que alguém seja 'amado por Deus', como é óbvio, torna-se necessário que exista um Deus concebido aos moldes teístas..." (R. N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.329). É interessante notar que, neste particular, os conceitos gnósticos se assemelham aos da Maçonaria.
Alguns manuscritos trazem "santificados" ao invés de "amados" ou "queridos". Este texto apresentaria, portanto, uma necessidade de separação do crente em relação ao mundo, precisamente o que contraria o pensamento dos gnósticos, que será o alvo do autor sagrado.

- Judas afirma que os chamados são conservados por Jesus Cristo, ou seja, declara que a salvação é um processo contínuo em que agem tanto o homem quanto Deus. Se, de um lado, o homem deve se santificar; de outro, Jesus, com Seu poder, sustenta-nos até o dia da glorificação -
Sl.72:2; Is.41:10;Jo.10:27-29.

OBS: " ... somos resguardados de todos os maus desígnios dos poderes malignos; somos preservados para um propósito específico e beneficente, tanto no caso dos resguardados, como no caso daquele que nos guarda(...) O fato que somos guardados dá-nos o poder de vencermos às tentações, de derrotarmos as heresias, de vivermos fielmente agora, e também de chegarmos à salvação eterna..." (R.N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.329).

- Judas afirma que intentava escrever sobre a salvação comum, mas foi impulsionado pelo Espírito a fazer uma defesa da fé cristã (cf.Jd.3). O verdadeiro cristão sempre age sob a direção do Espírito Santo de Deus -Rm.8:1; Gl.2:20;At.10:38; Ef.4:30.

OBS: " Por quê ? Porque os gnósticos estavam obtendo êxito em sua campanha de adquirir adeptos tirados da igreja, com sua doutrina insidiosa. Os gnósticos ensinavam que Cristo era apenas um "aeon" (uma emanação angelical) e não o Verbo ou mesmo um elevado poder espiritual, porquanto era apenas um dentre muitos mediadores e pequenos salvadores(...) Negavam a humanidade de Cristo, reduzindo ainda a sua 'divindade' ao mero nível de algum pequeno 'deus' dentre muitos..." (R.N.CHAMPLIN, NTI, v.6, p.330). Não é, porventura, o que fazem hoje os adeptos da Nova Era, bem como movimentos como o mormonismo, o moonismo, o romanismo e outros ?

- A defesa da fé por parte do cristão é algo sempre presente, pois vivemos em um mundo que está no maligno(
I Jo.5:19), mundo que sempre nos aborrece(I Jo.3:13), pois há uma oposição entre o crente e o mundo(I Jo.2:15; Tg.4:4). Esta é a batalha que deveremos travar até o dia da glorificação(Ef.6:10-12). - Gl.2:11;Fp.1:27; Tt.1:13.

OBS: "...Os fiéis em Cristo têm o solene encargo de 'batalhar' pela fé que Deus entregou aos apóstolos e demais santos(
Fp.1:27; cf. ITm.1:18; 6:12). (1) A 'fé', aqui, significa o evangelho proclamado por Cristo e os apóstolos. É a verdade estabelecida e inalterável, comunicada pelo Espírito Santo e incorporada ao NT.(...)(2) A palavra 'batalhar' (...) descreve a luta que o crente fiel deve travar na defesa da fé. Significa, literalmente, 'contender', 'estar sob muita pressão', ou 'travar uma luta'. Devemos esforçar-nos ao máximo na defesa da Palavra de Deus e da fé segundo o NT, mesmo se isso nos for custoso e agonizante(...)(3) Batalhar pela fé significa tomar posição firme contra aqueles que, dentro da igreja visível, negam a autoridade da Bíblia ou distorcem a fé original anunciada por Cristo e pelos apóstolos..." (Bíblia de Estudo Pentecostal, nota a Jd.3, p.1975).

"Lute com firmeza pela fé bíblica; Não aceite nenhuma forma de alteração. Rejeite qualquer que ensinar que a graça é ; permissão de Deus para o pecado'..." (Bíblia de Estudo Plenitude, Ação nº 1 no livro de Judas, p.1337).

Esta batalha é bem diferente da batalha preconizada pelos muçulmanos, que é uma guerra literal, contra a carne e o sangue, a famigerada "guerra santa"("jihad"), que é o impulso religioso dos movimentos fundamentalistas islâmicos, que têm descambado para o terrorismo. Eis alguns trechos do Alcorão a respeito: " Quantos profetas e, com eles, quantos grupos lutaram pela causa de Deus, sem desanimarem com o que lhes aconteceu; não se acovardaram, nem se renderam! Deus aprecia os perseverantes" (3:146); "Ó fiéis, não sejais como os incrédulos, que dizem de seus irmãos, quando estes viajam pela terra ou quando estão em combate: Se tivessem ficado conosco, não teriam morrido, nem sido assassinados! Com isso, Deus infunde-lhes a angústia nos corações, pois Deus concede a vida e a morte, e Deus bem vê tudo quando fazeis. Mas, se morrerdes ou fordes assassinados pela causa de Deus, sabei que a Sua indulgência e a Sua clemência são preferíveis a tudo quando possam acumular (3:156,157)".

- A fé é o produto da revelação de Deus aos homens, algo que foi dada uma vez aos homens, através de Jesus Cristo(
Hb.1:1) e que não pode ser acrescentada nem diminuída por homem algum(Mt.5:18,19; Ap.22:18,19). O texto original de Jd.3 fala em "uma vez para sempre", de "uma vez por todas". Por isso a Bíblia, que é o livro em que está a completa revelação de Deus ao homem, é nossa única regra de fé e prática. Defender a fé cristã, portanto, é sobretudo defender a sublimidade da Palavra de Deus.

OBS: "...A declaração diz que Cristo é a revelação final do N.T. Aquilo que degrada de Sua divindade, de Sua humanidade, de Seu senhorio e de Seu poder de salvar é que é automaticamente falso. O autor sagrado não fecha a porta da investigação na verdade, mas contendo que toda a verdade deve estar centralizada no Cristo anunciado pelos apóstolos. Gerações sucessivas têm o dever de transmitir a outros o que os apóstolos nos legaram. Ninguém, entretanto, é o guardião de toda a verdade divina, e podemos 'ir crescendo' na doutrina de Cristo, sendo-nos dado um maior e mais profundo discernimento quanto à sua significação cósmica..." (R.N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.331).

- A atualidade da epístola de Judas se encontra, precisamente, neste ponto, pois, atualmente, muitos são os que têm acrescentado, diminuído e distorcido os ensinamentos das Escrituras, gerando um sem-número de falsos ensinamentos que têm contaminado sobremaneira a vida espiritual de muitos crentes.

ESCLARECIMENTOS COMPLEMENTARES DO TEXTO DO COMENTÁRIO DA LIÇÃO

- O gnosticismo - " a palavra vem do grego "gignoskein", "saber", referindo-se a um movimento dedicado à obtenção de um conhecimento genuíno maior, por meio do qual, seus adeptos criam, poderia ser obtida a salvação. O gnosticismo, tal como as religiões misteriosas dos gregos, reivindicavam possuir uma sabedoria esotérica, que se tornaria propriedade dos iniciados, em contraste com os de fora, que não seriam assim privilegiados.(...) Esse sistema fez competição com o cristianismo bíblico durante cerca de 150 anos, tendo atingido seu ponto culminante na segunda metade do século II d.C.(...) No tocante ao cristianismo, o gnosticismo consistia, essencialmente, na tentativa de fundir as revelações dadas por meio de Cristo e Seus apóstolos com os padrões de pensamento já existentes. Se porventura o gnosticismo tivesse tido sucesso, nessa tentativa, o cristianismo tornar-se-ia apenas mais outro culto misterioso greco-romano" (R.N. CHAMPLIN, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.2, p.918-9).
" ... Além disso, os falsos mestres gnósticos eram homens ímpios, em sua doutrina e vida diária. Transformavam a graça de Deus em lascívia. Isso é uma referência à imoralidade oficialmente aprovada do sistema gnóstico. Os gnósticos criam que a matéria é o princípio mesmo do mal, e que o corpo participa da matéria(...) também criam que podemos ajudar ao sistema do mundo(...) abusando de nossos corpos. Esse abuso pode ser perpetrado através do ascetismo extremo (forma de gnosticismo atacado em Cl. 2:15 e s.) ou através da imoralidade exagerada, que enfraquece e degrada ao corpo (gnosticismo combatido nas epístolas pastorais de Paulo, nas epístolas joaninas e na epístola de Judas). Dessa maneira, pois, os gnósticos faziam da imoralidade algo não somente desejável, mas também legal(...). Os gnósticos se utilizavam da ilustração do mergulhar o ouro na lama. Assim fazendo-se, o ouro não é corrompido, pois a lama não pode penetrar no mesmo. E, desse modo, os gnósticos imaginavam, loucamente, que a alma mergulhada no pecado não é prejudicada. A mensagem dos mestres gnósticos, por conseguinte, não envolvia 'exigências morais'. Alguns deles eram místicos, e totalmente pensavam que suas supostas experiências místicas tornavam a moralidade algo desnecessário. Bem pelo contrário, sabemos que o misticismo autêntico purifica-nos a moralidade...." (R. N. CHAMPLIN, NTI, v.6, p.331-2).

- Tertuliano - O mais vigoroso e intransigente dos apologistas cristãos, ou seja, defensores da fé cristã. Nasceu em Cartago (região atual da Tunísia, no norte da África), tendo vivido entre 155 a 222 d.C. Antes de se converter, estudou direito, literatura e filosofia. Foi presbítero em Cartago. Foi um dos principais expositores da doutrina da Trindade, bem como do anti-intelectualismo, segundo a qual a fé independe, por completo, do intelecto, sendo dele a famosa frase "creio por ser absurdo"("credo quia absurdum"). (dados extraídos da Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.6, p.392).

2026@prelimas.com.br
Desenvolvido por J4net em Tecnologia - CNPJ: 23.828.751/0001-04 - adm@j4net.com.br - Fone:81 982180108
SiteDesde@2001